— Jerusalém, Jerusalém, que mata os profetas e apedreja os mensageiros que Deus lhe manda! Quantas vezes eu quis abraçar todo o seu povo, assim como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram! (Lucas 13.34)
Ao lermos as Escrituras Sagradas, percebemos uma impressionante consistência:
1) a rebeldia e pecaminosidade do ser humano
2) a paciência e amor inabaláveis de Deus.
Deus enviou profetas ao Seu povo incansavelmente, chamando-os ao arrependimento e à restauração. Homens como Samuel, Elias, Eliseu, Isaías, Jeremias, Ezequiel e tantos outros foram enviados. Mas qual foi a resposta do povo? Eles não apenas ignoraram os profetas; foram além, rejeitando-os violentamente. Como ouvimos hoje sobre Jeremias: se a mensagem não agrada, a solução é matar o mensageiro.
Assim também ocorre no Novo Testamento. Paulo descreve aqueles que andam como inimigos da cruz de Cristo: Eles vão para a destruição no inferno porque o deus deles são os desejos do corpo. Eles têm orgulho daquilo que devia ser uma vergonha para eles e pensam somente nas coisas que são deste mundo (Filipenses 3.19). Contudo, Deus, em Seu amor fiel, não desiste do Seu povo. Ele continua chamando, buscando, salvando.
Mas por que as pessoas rejeitam a Palavra de Deus? Algumas razões se destacam. Primeiramente, porque os falsos profetas estão sempre por perto. Martinho Lutero teria dito: "Sempre que Deus constrói uma igreja, o diabo constrói uma capela ao lado." Assim, para cada profeta verdadeiro, há um falso profeta contradizendo a mensagem divina. No tempo de Jeremias, enquanto ele anunciava a necessidade de arrependimento, os falsos profetas pregavam paz e segurança ilusórias. Qual mensagem seria mais fácil de ouvir?
Hoje, não é diferente. Para cada pregador que proclama a verdade, há outros afirmando que pecado não é pecado, que não precisamos mudar nada, que Deus apenas deseja nosso conforto. E essa é uma mensagem atraente, porque não exige arrependimento nem santidade.
A segunda razão para a rejeição da Palavra é a falta de memória espiritual; memória curta! Quando tudo vai bem, as pessoas esquecem de Deus e confiam em sua própria segurança. Quando tudo vai mal, duvidam do amor e cuidado divinos. Em ambos os casos, a última coisa que querem é um profeta chamando ao arrependimento.
Assim também foi com Jesus. Os fariseus disseram: — Vá embora daqui, porque Herodes quer matá-lo (Lucas 13.31). Eles queriam que Ele desaparecesse, pois Sua presença incomodava. Mas que tipo de Deus queremos? Um que nos deixe em paz, ou um que nos salve?
Na semana passada ouvimos sobre nosso Deus que veio lutar contra Satanás por nós e vencer. Jesus lutando no deserto contra as tentações do diabo. Nós gostamos disso.
As leituras de hoje tocam mais de perto, revelando um Deus que não veio apenas para nos salvar de Satanás, mas também de nós mesmos—de nossa natureza pecaminosa, de nossas inclinações rebeldes e desejos destrutivos. E isso é algo bem menos confortável de admitir. Aqueles pintinhos que não queriam ficar sob as asas da galinha? Não era só Israel. Não eram apenas os fariseus. Era eu. Porque eu não quero me arrepender. Não quero abrir mão dos pecados que me agradam. Não quero a disciplina de Deus. Não quero ouvir que estou pensando, agindo, falando e desejando de forma errada. Prefiro os falsos profetas que prometem o mundo e dizem que meu pecado não é pecado, que está tudo bem... Mas será que está mesmo?
Nosso Deus é o Deus que luta por nós, que veio para nos salvar não apenas de Satanás, mas também de nós mesmos, da nossa natureza pecaminosa e rebelde. Jesus não fugiu, mas seguiu Seu caminho até a cruz, onde pagou por nossos pecados. Como um pai amoroso disciplina seus filhos para seu bem, Deus nos chama ao arrependimento para nos dar vida verdadeira.
Mesmo diante da ameaça imposta pelos fariseus, Jesus não foi embora. Ele permaneceu e cumpriu Sua obra redentora. Ele continua presente hoje, reunindo Seu povo sob Suas asas. A transformação que Ele opera em nós começa agora, através do arrependimento, do Batismo, da Palavra e da Santa Ceia. Ele nos sustenta na fé e nos fortalece para resistirmos aos enganos deste mundo.
No final da leitura de hoje, Jesus diz Eu afirmo que vocês não me verão mais, até chegar o tempo em que dirão: “Deus abençoe aquele que vem em nome do Senhor!” (Lucas 13.35). Cantamos essa mesma expressão na liturgia da Santa Ceia, confessando que Cristo não nos abandonou, mas está presente em meio ao Seu povo.
Os problemas ainda virão. Satanás não desistirá de nos atacar. Mas em Cristo temos refúgio seguro. Como Paulo escreve em Romanos 8.38-39: Pois eu tenho a certeza de que nada pode nos separar do amor de Deus: nem a morte, nem a vida; nem os anjos, nem outras autoridades ou poderes celestiais; nem o presente, nem o futuro; nem o mundo lá de cima, nem o mundo lá de baixo. Em todo o Universo não há nada que possa nos separar do amor de Deus, que é nosso por meio de Cristo Jesus, o nosso Senhor.
Nosso conforto não está no fato de que nós amamos a Deus perfeitamente, mas na certeza de que Deus nos ama com todo o Seu coração. Por isso, Ele nos chama ao arrependimento, nos leva à cruz, nos alimenta com Sua Palavra e Sacramento, e nos conduzirá para casa no Último Dia.
Que essa confiança encha nossos corações e nos dê forças para permanecer firmes na fé, sabendo que em Cristo, o Deus que nos ama de todo o coração, estamos debaixo das asas de seu amor. Amém.
MENSAGEM DO 2º DOMINGO NA QUARESMA
TEXTOS: Lucas 13.31-35; Jeremias 26.8-15; Filipenses 3.17-4.1